quinta-feira, 30 de maio de 2024

Sexta consumada

 

"Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica". 
(Nelson Rodrigues)

(02/04/2021)

Hoje é sexta-feira. Inicio meu dia meditando na Palavra. Leio João 19 e me transporto para o cenário descrito naquela sexta-feira.

Vejo o Redentor carregando a própria Cruz; após ser julgado e condenado, entre silêncios, vergonhas, sentenças e humilhações, recebe de Pilatos a condenação de morte; dirige-se, então, ao lugar chamado A caveira, onde será crucificado. O som dos pregos sendo martelados em sua carne é ensurdecedor e permanece ressoando em meus ouvidos, mente e coração mesmo após ter cessado… mistura-se a risos desrespeitosos e debochados dos soldados que rasgam as vestes do Cristo e sorteiam entre si seu manto.

De pé, diante da cruz, estão algumas mulheres de corações apertados, corpos tensionados e almas quase sem esperança, tentando compreender a profusão de sentimentos evocados por aquele momento; suas faces perderam a capacidade de demonstrar qualquer expressão que não a tristeza diante da morte do Amado. Ali também está João, que em segundos recebe de Jesus a missão primorosa de acompanhar Maria como sua própria mãe, tornando-se seu mais novo filho, além de muitos outros que assistem, enfurecidamente eufóricos, o gran finale do crucificado.

O crucificado, aliás, é quem rouba a atenção em toda a cena. É belo, apesar da dor; sua beleza, porém, não está num rosto bonito ou corpo bem torneado: ela exala dele enquanto se mistura ao sofrer que lhe é imposto. Ele suporta desonra, vergonha e nudez; está completamente exposto em toda sua vulnerabilidade mas, ao mesmo tempo, me sinto tocada pelo poder que dele emana. Sim, sinto um poder emanando daquele ser fragilizado; ainda que sua aparência estivesse marcada por sangue, suor e dor, percebo-o glorioso. Quando tudo parece tenso demais para palavras, ouço sua voz pedir água. Discretamente sorrio, pois a Água da vida precisa, naquele instante, de água, e isso me faz lembrar de tudo o que fora dito a respeito do Messias, do quanto Ele precisava viver tamanha humilhação a fim de cumprir, cabalmente, a missão que lhe fora destinada: entregar-se, sem manchas, em obediência ao Pai e por amor a mim. "Está consumado", sua voz mais uma vez ecoa, e nessas palavras tenho a certeza de que Ele sabia o que fazia. E sabia, também, que aquela etapa chegava ao fim. Estava consumado.

Era, como hoje, uma sexta-feira. A virtude do Redentor não prevarica, porém; ao contrário, expõe-se à sua máxima potência, mantendo-se incorruptível! O Redentor cumpre Seu destino, completando, majestosamente, a obra da redenção!

Ele não recua.

Não para.

Não desiste.

Ele compreende Sua missão.

Então, por amor, sempre por amor, inclina a cabeça e entrega o espírito. Não há eufemismo aqui: Ele se entrega… Ninguém o força, ninguém toma dele. Ele dá sua vida para tudo estar consumado.

Jesus não prevaricou, apesar de sexta-feira.

Obrigada, Senhor. Obrigada.


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