quinta-feira, 30 de maio de 2024

Entre a alegria e a tristeza

 

"A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser."
(Adélia Prado)

(12/09/2023)

Achei bem otimistas os versos de Adélia Prado, mas desconfio que, talvez, muitos considerem que eles sirvam mais ao universo poético do que à vida real que se constrói a cada instante. E não há problema algum nisso; afinal, a poesia, a literatura em geral, na verdade, tem por princípio ser uma representação da vida, mas sem a obrigatoriedade de manter uma fidedignidade com ela. Usando linguagem metafórica, criatividade e estilos diversos, a literatura transmite mensagens em que a plurissignificação e a imitação se completam, sem, no entanto, deixar que a arte em si seja manifesta.

Mas voltemos à afirmação de que a vida é mais tempo alegre do que triste. Minha desconfiança de que não haja unanimidade de concordância com essa sentença dá-se pelo fato de que tendemos, como humanos que somos, a considerar com destaque o que de ruim ou triste nos acontece ou acontece aos outros. Sob a justificativa de que desgraça pouca é bobagem, seguimos buscando - e encontrando - motivos para ressentir-se ou reclamar, lamentar ou se chatear, entristecer-se ou sentar e chorar amplificando, assim, as situações da vida, especialmente as que fujam do padrão "tempo alegre". É mais fácil, afinal, enfatizar os deslizes e as faltas do que valorizar as alegrias imensas ou pequeninas que compõem nosso cotidiano.

O que será, porém, que a Bíblia fala sobre isso?

Em primeiro lugar, aprendemos, na Escritura, que "o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã" (Sl 30.5), o que nos aponta para duas verdades: haverá choro e noites, assim como haverá ausência de choro e manhãs. Metaforicamente, a noite nos remete a final e, consequentemente, a cansaço, desânimo, fraqueza. Nesse cenário, o choro, por vezes, aparece até mesmo como uma válvula de escape para as pressões do dia. Por outro lado, a manhã nos remete à renovação, misericórdia renovada, ânimo recuperado, elementos que se ligam mais facilmente à alegria. Fato, porém, é que ambos os períodos compõem as nossas vidas. Assim como haverá manhãs e noites, sorrisos e choros nos acompanharão. Ainda nesse campo semântico de alegria e choro, o salmo 126, em seu versículo 5 assim nos anuncia: "Aqueles que semeiam com lágrimas, com cantos de alegria colherão", mais uma vez trazendo um ensinamento sobre a alegria que sucede a tristeza, esperançando nossas vidas mesmo nos momentos duros de plantio, de choro noturno ou de tristeza sem medida.

Em segundo lugar, a Bíblia nos ensina que devemos manter o coração não angustiado, ou seja, tranquilo, pois cremos em Deus e em Jesus (Jo 14.1). Ele, que é a nossa paz (Sl 4.8), tira toda perturbação de nosso coração, transformando tristeza em alegria (Jo 16.20). Podemos até não ver ou contabilizar, mas, certamente se o fizéssemos, perceberíamos, surpresos, o quanto Deus faz e fez por nós, e isso se constitui um grandioso motivo pelo qual podemos agradecer ao Pai e nos alegrar nEle. Perceber as bênçãos de Deus em lugar de privilegiar o que nos ocorre de mau certamente nos tornará pessoas mais felizes e de corações tranquilos, porque seremos, também, mais gratas. Além disso, vale lembrar que "tudo tem seu tempo determinado" (EC 3.1), o que nos remete à providência de Deus que a tudo governa e conduz de modo a que Sua vontade soberana se cumpra. Ninguém sofre em excesso ou se alegra infinitamente; há tempo para tudo, pois o Senhor do tempo a tudo governa.

O Evangelho nos convida a viver de forma equilibrada, pautando nossa existência na bússola que é a Palavra de Deus. Em tempos alegres ou tristes, durante as noites frias ou as manhãs de sol, diante de alegres gargalhadas ou compulsivos choros, Deus está conosco suprindo, guardando, guiando, ensinando.

Apenas confie.

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